27
Mar 09

Matei o meu Primeiro Vampiro...Acho!

Ontem à noite matei o meu primeiro vampiro... Acho!

 

Por razões óbvias não vou revelar o meu nome. No entanto, o peso que sinto na consciência e o cheiro do sangue fresco que se recusa teimosamente a sair das minhas unhas, levou-me a esta confissão mascarada.

 

Tenho medo! É esta a primeira ideia que me ocorre ao cérebro ainda dormente dos tormentos da noite passada. Tenho medo de várias coisas...

 

Tenho medo de ter cometido um erro. Tenho medo de ter chacinado uma alma inocente. E por isso tenho medo de ser descoberto, perseguido e condenado. Mas acima de tudo, tenho medo de ter ficado viciado. Tenho medo de nunca mais vir a conseguir parar.

 

Já são quase incontáveis os dias que passaram desde que pela primeira vez percebi que o seu comportamento era suspeito. Ele não se movia como uma pessoa normal. Não falava como uma pessoa normal. Não comia ou bebia o mesmo que uma pessoa normal. E ele não dormia numa cama normal.

 

Ontem à noite resolvi segui-lo até ao seu covil. Não, não era uma caverna ou um cemitério, nem qualquer outro depósito de carcaças humanas. A minha perseguição durou apenas o tempo suficiente para chegar até ao outro lado da rua. Falo do meu vizinho da frente. Aquele ser que ontem à noite teve direito à sua derradeira lufada de ar.

 

À socapa consegui aproximar-me da figura balofa. Sob a ameaça de um cutelo forcei-o a entrar em casa. Entrei com ele. Fechei a porta por detrás de nós e dei início ao interrogatório do juízo final. Testemunhas não havia. Advogado de defesa também não. Nem juiz ou jurados marcaram presença. Apenas eu, ele, o meu cutelo, e a estaca de madeira que ocultava por debaixo do meu casaco. Uma peça de arte mórbida e mortífera que me custou quase dois dias de trabalho até à sua conclusão. Sabia que era assim que tinha de ser feito. Pelo menos assim pensava...

 

É incrível  o quanto estas almas condenadas têm de sabedoria e malvadez. Quando se vêem  ameaçadas são capazes de inventar mil e uma artimanhas para escapar ao destino cruel que lhe reservam aqueles que, como eu desde ontem, os perseguem na calada na noite. Provavelmente isto fará rir muita gente. A mim sim que fez. Depois de confrontado com as minhas acusações irrefutáveis, eis o que o desgraçado me disse....

 

Disse-me que mancava porque tinha sofrido um grave acidente de viação que lhe destroçara o joelho esquerdo. Disse-me que o problema da gaguez era congénito, mas ao mesmo tempo, algo que crescera com ele no dia do tal acidente. Disse-me que dormia de dia e saía de noite porque trabalhava numa padaria. Disse-me que não gostava de peixe e que quanto a bebidas... só se saciava com sumo de tomate ou vinho tinto. E por último, imaginem só.... Disse-me que dormia na cave porque sofria de fotofobia, e era aí o único sítio da casa onde a incomodativa luz do sol não conseguia chegar.

 

Sei que se estão a rir neste momento. De facto é hilariante, e foi por isso que eu também me ri um momento antes de acabar com ele. Uma vez mais digo... É absolutamente inacreditável aquilo que estas criaturas logram magicar para escapar à morte. Os tais seres intocáveis que de imortais só têm a capacidade de persuasão e a habilidade para o embuste.

 

Senti que gozava com a minha cara e por isso, sem mais demora, tombei-o por terra. Puxei do aguçado pedaço de madeira e espetei-lho sobre o peito. Cravei e empurrei a maldita tábua até senti-la perfurar com gosto o seu coração assustado. Sem pestanejar, virei costas e regressei ao leito com a sensação de dever cumprido. Dormi profundamente até hoje de manhã.

 

E foi quando tomava as minhas habituais torradas com manteiga ao pequeno almoço, que uma estranha sensação de inquietação e de medo se abateu sobre mim... Uma sensação agridoce. Um misto de pânico e de excitação. E não!... Não foi do sabor a pão queimado.

 

A minha mente achou por bem começar a questionar-se...

 

Será que fiz o correcto? Será que acabei mesmo de matar um vampiro?... Ou será que a cultura de Hollywood me deturpou e moldou de tal forma o discernimento, que me levou ao extremo de sacrificar uma vida inocente?... Tanta dúvida dentro de mim só me acarreta mais incerteza... E é por isso que eu digo:

 

Ontem à noite matei o meu primeiro vampiro... Acho!

 

publicado por sangue-fresco às 10:48

26
Mar 09

A verdade na mentira

Escrever uma crónica com uma única condição: que falasse de vampiros. Foi por acaso que dei com este passatempo. Estava a navegar, como sempre o faço durante aquelas horas que precedem o pôr-do-sol, num fórum de literatura fantástica, quando o vi. Achei irónico participar. Porque não?, pensei. Afinal quem melhor que um de nós para escrever sobre a nossa raça? Tanta coisa foi inventada com o passar dos séculos… Achei que podia explicar algumas. Mesmo sabendo que todos os que vão ler estas linhas pensarão que foi uma ideia interessante ou mesmo original de fazer uma crónica desta maneira. Vocês, os humanos, são bons a negar as evidências. Não vos culpo. Creio que no vosso lugar era capaz de fazer o mesmo. Ninguém gosta de saber que está no topo da cadeira alimentar. E isso responde à primeira grande pergunta:

Bebemos sangue? Humano?

Sim e sim. A razão é simples. É a mesma que faz com que os humanos não sejam vegetarianos. Porque deveríamos nós ser?

Remorsos?

Pensas na pobre da vaca quando comes um bife? Nos seus indefesos vitelos? Não me aparece…

Vivemos só de noite?

Sim. O porquê é simples. Fomos expulsos da luz do dia. É uma longa história. Resumindo: os nossos criadores não gostaram de ver o falhanço deles à luz do dia. Não estão a perceber, pois não? Um curso rápido da nossa história: fomos criados com um propósito. Contudo, quando nos fartamos de ser escravos, revoltámo-nos. Um das consequências foi a expulsão da luz do dia.

Quem nos criou?

Oh humano! Não viverás tempo suficiente para sentir o medo dessa revelação.

Somos maus?

Matamos para nos alimentarmos e, esqueci-me de dizer, temos prazer nisso. Responde à pergunta?

Os filmes e os livros onde os ditos vampiros são amigos dos humanos e têm sentimentos são cómicos. Todavia, acreditem, isso sim é ficção. A verdade é que fomos criados com um objectivo que não cedia espaço a sentimentos. Eu entendo que vocês precisem de pensar o contrário. Afinal são simples humanos…

Qual o objectivo?

A essa pergunta também não posso responder. Acreditem, no entanto, quando vos digo que não somos o pior que anda nas ruas à noite.

Porque nos escondemos?

Porque vocês, os humanos, não estão prontos para nós. Como acham que seria se amanhã ligassem a televisão e vissem nas notícias que os teus piores medos são reais? Que és o prato principal? Sentes o medo? Eu sei que sim. A chatice é que o medo dá um sabor amargo ao sangue, tirando-lhe o seu delicioso sabor.

Somos imortais?

Lamento dizer. Essa parte da história é verídica. Temos os nossos pontos fracos. Obviamente não os vou revelar aqui. Mas, sim, somos imortais.

Um humano pode tornar-se vampiro?

Claro! Mas, para isso, terá de beber o sangue dos nossos criadores. Não pensem que eles o dão de graça… Existem alguns casos durante os séculos. Tentem a vossa sorte. Se conseguirem captar-lhes a atenção pode ser que, em vez de vos matar, se apercebam que lhes podem ser úteis e vos transformem. Boa sorte!

Tenho a certeza que têm muitas mais perguntas, às quais eu gostaria de responder. Só que o sol já se pôs e estou faminto. Eu sei que vão todos pensar que tudo isto é mentira. Que nada do que disse é real. Daí a minha candidatura ao concurso. Sei que não vou ficar sem jantar.

Só mais uma coisa. Quando saíres à noite de um bar para atender o telemóvel ou andares pelas ruas com um amigo, sozinhos, lembra-te sempre que eu também lá ando…

publicado por sangue-fresco às 14:26

Crónicas do Sangue Fresco

 

Nasci no ano de 1888, já com 17 anos humanos...Foram bons anos, e não estou arrependida do meu Papá me ter passado para esta vida obscura.

Já não me recordo bem desse primeiro ano… na verdade não me recordo bem de nenhum dos meus primeiros anos como vampira…mas o meu Papá diz me que estava sempre sedenta por sangue humano!

Hoje, passados 121 anos, permaneço jovem e bela como quando nasci…Não é mau…assim atraio melhor as presas…mas não gosto de matar, sinto-me demasiado humana para isso, talvez seja só uma ilusão que criei para viver de consciência limpa até ao infinito, ou não sei…Enfim, para não os matar dou-lhes o maior prazer possível, quando amanhece e os pequeninos se vão embora nem sabem bem o que aconteceu ou o que foi sonho…e pelo menos saem felizes!

Durante os meus 121 anos aprendi muita coisa, vi muita coisa e experimentei mais coisas ainda…e apesar de ter tido um Papá presente não se pode dizer que ele tenha sido grande influência!

        Mas serviu para aprender a ver o mundo com os meus novos olhos…aprendi que o melhor sangue era de virgens e bebés, mas sempre fui demasiadamente humana, por isso nunca me senti bem a beber de bebés…julgo que porque não se podem defender, não sei…o sangue de virgens é o que mais gosto, e já iniciei muitos adolescentes.

            A maior parte, só por uma noite, porém existem raras excepções que consegui tolerar por algum tempo…até eles perceberem o que eu era.

            Actualmente, que tudo muda cada dia, e que já não há nada privado, tenho pena de não ter ninguém…ou de ninguém me ter a mim, pois eu já tive muitos humanos…Acontece que os da minha espécie não toleram relações afectivas, agora que penso nisso, o Papá deve ter sofrido por querer ficar comigo e tratar de mim, enquanto os Humanos não toleram relações com os da minha espécie.

Por isso como disse, acho que sempre fui demasiado humana…E apesar de ter vivido anos cheios de coisas maravilhosas penso em quão vazios eles foram…Eu lá os preenchia com aventuras, viagens, esquemas para arranjar presas…

Mas agora sinto-me só….mesmo na companhia do Papá, sinto-me tão sozinha!...Só gostava de ser de alguém, e viver feliz para sempre como nas histórias…pois o amor foi a única experiencia que nunca vivi…

publicado por sangue-fresco às 14:19

25
Mar 09

O Predador e a Presa

Não acreditava em ti. Sempre foste omissa na verdade. Escorregadia quando o assunto não te interessava, ou ameaçava o teu segredo. Espetava pequenos alfinetes na enorme couraça que tinhas montada em volta das tuas histórias, credíveis demais para serem postas em causa. Aquele sorriso sequestrador, tornava-me um capricho nas tuas mãos. Um pequeno papagaio voando escorregadio pelas correntes de ar ascendente.

Já conhecia os cantos à casa e previsivelmente era na escuridão que eu temia mais a tua furtiva aproximação. Vivias em locais escondidos, à mercê da minha coragem que nunca chegou a aparecer.
 

O silêncio do que nunca dissemos encheu-me de uma ansiedade salgada. Um sal que me secou como um peixe ao sol, lentamente preenchendo tudo o resto com a falsidade que eu antes não conhecia. Noite após noite desaparecias para lugares que para mim não existiam onde predadora colhias o teu alimento.
 

Prometes-te que me contavas quando precipitada sobre o meu pescoço escondeste o desejo que fervia a tua vontade. Os teus olhos desumanos pregaram-se ao reflexo da janela, a mesma que nos separava das afugentadas árvores sacudidas pela intempérida. Sussurraste que tinhas de partir, nunca mais nos iríamos ver… Era para o meu bem dizias tu entre o inesquecível bater da porta!
 

Lutei por me mentir, dia após dia, fingindo ser o amigo que te conhecera. Um amigo das más horas, dos desejos e das loucuras. Um amigo que entrava no teu quarto quando tudo estava escuro e arrastava o teu calor para o aconchego dos meus braços. Mas até esse partiu, levado por ti. Em seu lugar ficou uma carcaça vagabunda que agora preenche a sala de tua casa. Um moribundo de olhar pregado às tuas fotos, aquelas onde ainda vivias a nossa vida, dona e senhora do teu sorriso e da tua mentira.
 

Fui fraco onde tu foste forte, mas como tudo o resto esse era mais um resultado da nossa invulgar convivência! Agora que penso, sempre fui conivente, talvez porque me convinha ser teu sem reservas nem barreiras. Estar à tua disposição, à distância de uma chamada.

Acabei por me deixar morder por uma das tuas amigas. Ela disse-me que não havia caminho de volta. Era isso que eu queria… Chega desta fome compulsiva onde o desejo de te ter é superior à praga a que me entreguei. Percorro as noites á tua procura. Mordo e mato, vivo e morro, sem saber que me protegias. Que até talvez tenhas partido para me amar à distância como eu era para ti! Como éramos um para o outro…


Uma presa a viver com o seu predador.

publicado por sangue-fresco às 11:02

23
Mar 09

Encontro com o vampiro

Tic Tac. Tic Tac. Tic Tac.

BAM!

Um estrondo seco ressoou pela sala escura. Num impulso, tinha acabado de atirar o relógio contra a parede. Eu estava doida, completamente fora de mim. Lentamente, baixei-me para averiguar o lamentável (ou assim o tinha pensado) estado do relógio.

… Tic Tac. Tic Tac. Tic Tac.

Não sofreu nada mais que um estilhaço. A minha mente, como já era costume, virou-se para o lado negativo. Bolas, nem sequer tenho forças para partir um mísero relógio, quanto mais lidar com um vampiro sedento.

Eu nem sequer queria este trabalho. Preferia mil vezes estar a entrevistar o presidente enfadonho de alguma empresa milionária que não estivesse arrepiantemente atraído pelas veias do meu pescoço. Estremeci. Mas é claro, segundo o patrão, aparentemente só eu tinha os níveis necessários de tendências suicidas para vir fazer a entrevista a um vampiro possivelmente psicótico a troco de uns extras para pagar a renda.

Começava a pensar que talvez fosse melhor começar já a preparar uma tenda à beira da estrada.

O vampiro estava atrasado. Talvez nem viesse. Ou talvez tivesse parado para a “refeição”. Ou talvez eu seja a refeição. Estremeci pela enésima vez.

De repente, a janela abriu-se e de lá saiu uma corrente de vento frio que me arrepiou (mesmo que arrepiada já eu estivesse). Oh, uma entrada dramática. Tão típico.

Encostei-me à parede, não querendo ser apanhada de surpresa como nos filmes de terror (porque o monstro aparece sempre por trás), e acabamos por nos perguntar qual será o QI das personagens. Neste momento questionava-me em relação ao meu.
Inconscientemente, apertei o crucifixo que trazia ao pescoço com muita força. Ou era isso, ou era começar aos pontapés com o ar. Pensar-se-ia que a primeira opção teve muito mais dignidade.

 Contudo, foi o que desencadeou o primeiro sinal de vida (oh, a ironia!) do vampiro em questão. E a sua reacção não foi nada do que eu estava à espera.

Ele teve o atrevimento de se rir.           

Como eu fiquei zangada! Quando ele se dignasse a aparecer no meu campo de visão, ia partir aqueles dentes afiados um por um.

- Não acredito que ainda existam pessoas que acreditam no devastador poder de uma cruz – ouviu-se uma voz fria, com um distinto tom de escárnio.

Senti-me a ficar vermelha, ao mesmo tempo de fúria e de vergonha. Excelente, torna-lhe a tarefa mais fácil ao relembrá-lo da quantidade de sangue que possuis. O teu sentido de auto-preservação não conhece limites.

Finalmente, da voz veio um corpo e pela primeira vez consegui vê-lo. Desejava não o ter feito.

Das sombras surgiu o homem (se é que se pode apelidá-lo de tal) mais atraente que eu alguma vez tivera a infelicidade de deitar os olhos. Julgava impossível, mas ainda consegui a proeza de ficar ainda mais escarlate. Mais tarde, desculpei o meu comportamento como “típico de qualquer mulher que se preze”. Naquele momento a única coisa que me ocorria era, “Esquece a tenda, vai mas é arranjar uma caverna onde te possas ir esconder para sempre.”

Não o vou descrever, nenhuma das minhas palavras iria fazer jus àquela visão e não quero que o meu leitor me julgue de tonta ao me delongar em disparates típicos de uma menina de escola.   

Posso dizer que pouco me lembro do que foi dito. A minha mão entrou em modo automático, e limitei-me a escrever. O meu cérebro estava longe. Certamente que seria uma vítima fácil, e com o passar das horas, o meu medo desvaneceu. O meu problema era outro. O qual, como deverão compreender, prefiro não falar.

No final, acabei por omitir grande parte das informações que obtive. O meu entrevistado não parecia muito disposto a contar muitos detalhes sobre si próprio. Parecia mais curioso em falar com uma humana que não fugisse a sete pés ao vê-lo. E quanto ao pouco que retirei, queira compreender, caro leitor, a história dos vampiros tem pertencido ao imaginário de todos nós durante séculos. Quem sou eu para desfazer (ou não) os mitos que sempre existiram? Uma muito pobre jornalista, poderão responder.

Bom… talvez precise de arranjar outra forma de pagar a renda.

publicado por sangue-fresco às 09:30

20
Mar 09

A Culpa é da Branca de Neve
 

Sentia já o sangue fresco a correr-me nas veias aquecendo-me as mãos enquanto as mantinha debaixo da gélida água da torneira. Sempre detestara a parte do pós ataque. O sangue seco colava-se-me aos dedos e entranhava-se-me por debaixo das unhas compridas. Era por isso que as pintava todos os dias num tom vermelho escuro, disfarçando assim estas pistas denunciadoras do meu hábito sangrento. Bem, não era bem um hábito, era mais uma necessidade. Afinal, como todos os humanos, eu lutava para não morrer. Talvez morrer também não seja o termo certo, uma vez que já passei por essa fase, nada agradável diga-se, há muito tempo. Vamos apenas considerar que independentemente do que sou, quero continuar a existir. E, para que isso aconteça, tenho de me alimentar. Vendo as coisas deste prisma trata-se de algo bastante simples de explicar.

Olhei-me ao espelho e esbocei um sorriso de satisfação. As minhas faces estavam a ficar rosáceas à medida que o novo sangue percorria o meu corpo. Hoje a parva da minha colega humana Celine já não poderia dizer quando me visse:

- Oh Isabel! Estás tão pálida, sentes-te bem? Queres um copo de água com açúcar? Acho que precisas de apanhar sol.

- Estou óptima. Estou simplesmente a concorrer para ser a próxima Branca de Neve – respondo-lhe eu com um sorriso irónico que ela não consegue entender. Conheci a verdadeira Branca de Neve e posso garantir que as histórias que se contam sobre ela foram muito “embelezadas”. Como é que toda a gente via aquela pele branca e não a relacionava com vampiros! É algo que nunca consegui entender. Bem, a madrasta dela percebeu tudo, mas acabou por ser a má da fita. E agora, parte da vida dela é uma história de embalar para crianças! Ah! As gargalhadas que ela não deve dar à conta disso. Por acaso tenho saudades dela, há uns séculos que não a vejo. Interrogo-me se ela ainda fará aquelas orgias sangrentas de que tanto gostava. Estou mesmo a precisar de me divertir. Vou procurar o telefone dela quando chegar ao trabalho. Os da nossa espécie sabem sempre como se hão-de encontrar.

Qualquer dia mordo a cabra da Celine, já pensei nisso, o problema seria que depois, e dado o meu historial com ela, podia acabar mesmo por matá-la. Ou então, com um feitio como o dela, sempre a falar mal dos outros nas costas deles, provavelmente cairia instantaneamente para o lado, agoniada com as primeiras gotas do seu sangue envenenando. Não, o meu método tem de se manter o mesmo se não quero dar nas vistas. A escolha do humano tem de ser aleatória.
Olho para o chão. A minha vítima ainda se encontra pálida e desmaiada. Espero não lhe ter retirado sangue a mais, não me apetece ter o trabalho de me livrar de um corpo a meio do dia e mais tarde ter o CSI à perna. Quando chegar lá fora faço uma chamada anónima e chamo uma ambulância a dizer que houve um acidente. Que tipo de acidente devo inventar desta vez? Alguma coisa me há-de ocorrer. Tenho séculos de experiência a meu favor.

Agora, que já tenho as mãos limpas, posso tirar a peruca negra deixando o meu farto cabelo loiro aparecer e substituir a blusa preta manchada de sangue por uma imaculada cor-de-rosa bebé. Visto uma mini-saia, maquilho-me e coloco uns falsos óculos de ler. Fico satisfeita. Quem poderia adivinhar que por detrás deste ar angelical está uma vampira? Ninguém.

publicado por sangue-fresco às 12:02

18
Mar 09

Quem quer viver para sempre?

 

Era isto que eu ganhava por amar um homem morto.

Quando somos jovens, no auge da nossa vitalidade, tudo parece possível, sem regras ou limites. Para mim era simples: O meu coração escolheu-o e não ia haver razão que me impedisse de viver com ele.

E vivemos. Tivemos juntos momentos de felicidade, momentos de prazer fantásticos e brigas terríveis. Os filhos nunca vieram, porque mulher alguma consegue engravidar de um vampiro. Nunca questionámos porque é que estávamos juntos ou até quando iria durar. Amávamo-nos, uma noite de cada vez.

Mas as noites passam a semanas, as semanas a meses e os meses a anos. O tempo passou, passou sobre mim, sobre o meu corpo humano.

As brigas terríveis foram sempre sobre a minha condição: era humana, era frágil, mortal. Bastava ele transformar-me e ficaríamos juntos para sempre. Recusei. Quem seria eu como vampira? Iria perder a minha identidade e nada garantia que iria amá-lo ou que ficaríamos juntos para sempre. Os vampiros não conseguem ficar juntos para sempre.

Ficou decidido: até que a morte nos separe. A minha morte nos separe...

Quando a velhice chegou mandei-o embora vezes sem conta. Doía-me vê-lo a cuidar de mim, estar ali preso a um corpo decadente, de quem já nem alimentar podia. Mas ele ficou.

Agora, sentindo as últimas golfadas de ar a entrar no meu corpo, encaro os seus olhos eternos. As suas mãos frias seguram as minhas, suavemente tocando os meus pulsos. O nosso laço de sangue diz-lhe que estou prestes a partir. O nosso laço de sangue diz-me que ele me ama. Ele nunca me disse, seria ridículo. Quem é que pronuncia o seu amor a um prato de comida? Não precisava de o dizer, sentia-o no sangue. O nosso sangue.

Estiquei-lhe os pulsos e pedi-lhe: morde. A última refeição que te dou.

E no momento em que sugava os meus restos de vitalidade pensei: Na sua eternidade, sobre quantos leitos de morte irá ele debruçar-se depois do meu?

 

publicado por sangue-fresco às 11:14

06
Mar 09

A Minha Alma

Aqui estou eu.

Uma alma presa num corpo já morto. Vivo num mundo onde as pessoas preferem aceitar uma alma perdida, onde preferem rituais exorcistas. E entretanto aqui estou eu.


Uma vampira.

Como estes humanos se enganam relativamente a nós…


Crucifixos? Alhos? Estacas de madeira no coração? Oh, sim… Quando é que iram perceber que o coração não bate? Que não precisamos dele? A única e essencial maneira de nos mantermos vivos é bebendo sangue, para que possamos regenerar. Ah! Sim… O sol? Adoro o sol... Ao contrário do que afirmam os humanos, nós não morremos ao sol. Pura e simplesmente, temos uma pele muito mais sensível que a dos humanos. Ou seja, apanhamos mais rapidamente queimaduras solares. Nada que não se cure com um pouco de sangue.


Neste momento devem estar a perguntar quem sou eu realmente. O meu nome é Atena. Tenho setecentos anos. Vivo na sombra dos humanos desde os meus vinte e um. E vivo amaldiçoada desde então. Imaginem a vossa vida sem amor. Não tenho amigos, só companheiros de caça. Não tenho família, pois já morreram todos. Não tenho amor, porque ninguém quereria amar uma vampira.


Recentemente cruzei-me com um humano, o mais bonito e atraente com que já havia me cruzado em todos estes séculos. A atracção entre nós foi tão intensa... Mas, como iria eu aproximar-me dele sem o assustar com a minha triste realidade? Poderia eu ter o direito de o condenar a esta forma de morte? Por muito amor que houvesse entre nós, será que resistiria a séculos e séculos de existência?


Oh, Trevas! A minha alma carece de afecto... De alguém que seja corajoso o suficiente para poder amar uma vampira... Daria tudo o que tenho para voltar a ser humana. Para que quero eu a velocidade se não tenho ninguém para quem correr. Para quê a força se não tenho quem proteger? Para que serve um corpo frio se não tenho quem o aqueça?


Porque fazem de nós heróis ou monstros? Não passamos de almas humanas em corpos que acompanham a velocidade dos sonhos, mas não os nossos sonhos. Não os meus sonhos de humana. Os sonhos não têm limites, mas a realidade não os acompanha.


Peço-vos... Não criem ilusões sobre nós... Nós não somos o que parecemos ser. Somos apenas humanos com defeitos e virtudes como todos vocês. Simplesmente, só precisamos do vosso sangue para nos mantermos vivos.

 

 

 

publicado por sangue-fresco às 16:29

Crónica de um Vampiro

Dia 1,

Tenho uma vizinha nova! Vi-a, da janela do meu quarto. Ela vinha num passo apressado e entrou para a antiga casa dos Compton. Não tive tempo suficiente para lhe ver bem a cara, mas pareceu-me daquelas caras de capa de revista. O cabelo é escuro e liso e entendiam-se perfeitamente os contornos de um corpo jovial e curvilíneo por baixo daquelas roupas pretas. Tive muita dificuldade em perceber que idade teria, mas também… nunca tive muito jeito para adivinhar a idade das mulheres.

Não percebo como uma rapariga nova veio parar a esta aldeia. Há anos que ninguém se muda para cá e os novos há muito que partiram. Não entendo. A casa está praticamente em ruínas. Amanhã vou tentar saber quem é. A palavra já deve correr a boca do povo, lá na vila.

 

Dia 3,

Ontem passei todo o dia a tratar da horta e a cavar o terreno para colocar novos enxertos das árvores de fruto. Com tanta chuva senti o sabor da ingratidão. A terra ficou lamacenta e todo o dia andei de pés ensopados. Todo o dia, por entre as sebes, lancei o olho à casa dela. Mas não me apercebi de movimento nenhum. Tenho pensado bastante nela. Ainda ontem lhe vi a cara e hoje já tenho dificuldade em recordar os traços! Já não sei se é bonita ou se parecia bonita. Vou para a cama porque já sinto um peso muito grande nos olhos. Só espero que não seja alguma gripe.

 

Dia 5,

Passei uma noite infernal! Tive um sono tão febril que não sei se dormi se sonhei acordado. Foi estranho. No meu sonho a mulher do lado atacava-me e mordia-me arrancando pedaços de mim à dentada. Era uma devoradora! Passei toda a noite nisto e não consegui nem um pouco de descanso. Não tive tempo de ir à vila e nem sequer saí de casa. Vou fechar as persianas e passar o dia na cama. Provavelmente foi de estar todo o dia à chuva…

 

….,

Hoje acordei durante a noite, creio que dormi todo o dia. Sem saber o que fazer, dei por mim à janela do quarto a vigiar o movimento na casa dela. Achei muito estranho, porque de noite houve muito movimento. Ouvi muitos barulhos e percebi que estava a fazer reparações na casa. Que raio de mulher passa toda a noite acordada a fazer reparações? Será que não dorme? Passou toda a noite a reparar as tábuas do chão e paredes, e martelava com a força de um homem. No fim disto, como se não bastasse, foi pintar toda a divisão da sala e do quarto. Será que ela é um deles? O melhor é mantê-la sobre vigia. Sexta-feira, no bar, O Xerife Duncan disse-me que tivesse cautela com os estranhos. Por causa daquela história de legalizarem os vampiros. Consta que desde que os legalizaram, os vampiros andam a espalhar-se pelas terras mais pacatas. E atacam as pessoas. Eu fiz pouco dele, mas agora já não sei o que pensar. Ahh aquele corpo dela…

…Adormeci a escrever. Vou-me deitar que já está a amanhecer e ainda estou com os dias trocados.

 

Outro dia,

Acordei já eram 6 da tarde. Tal era a vontade de a ver que a primeira coisa que fiz foi abrir as frestas da persiana e tentar perceber o que se passava na casa dela. Durante algumas horas não vi movimento nenhum. Depois: martelo, tintas, escadotes, tábuas e até mobília ela arrastou! Veio cá fora, já a noite tinha caído, e olhou para mim directamente. Como podia ela saber que eu estava por trás das cortinas? As cortinas são espessas, ela não me podia ter visto! Depois, tirou qualquer coisa da mala do carro, virou-me as costas e voltou para dentro de casa. Ela é uma vampira, agora tenho a certeza. Acho que até lhe vi o brilho nos olhos! Mesmo antes de virar a cabeça. Ela deve ter uma infravisão! Viu-me através das cortinas. Eu sei que ela viu! Tenho que contar aos outros! Esta mulher do diabo vai atacar-me e não tenho quem me valha.

Agora que lhe vi a cara tenho a certeza que é a mulher mais linda que já vi em toda a minha vida! Só quero beijá-la e agarrar aquele corpo para sempre nas minhas mãos! Dizem que eles nos conseguem “envolver” com o olhar. Meu Deus! O que me está a acontecer! Será que já estou sob o efeito do encantamento? Tenho que rezar, rezar!

 

Dia depois,

Reparei que o telefone não funciona. Ou foi da trovoada ou… ela cortou-me os fios do telefone? Será que vai atacar-me de noite? Fechei as portas e tranquei todas as janelas. Vi luz na casa dela. Fiquei tão ansioso que tive que sair e ir espreitar-lhe pela janela da sala. Deus não pode ter feito uma mulher assim! Que corpo! Que cabelo! Ela estava em silêncio e parecia estar com alguma coisa nas mãos. Mas estava de costas para mim e não pude perceber. Fui descuidado, dei um pontapé  numas ferramentas que ela tinha deixado no alpendre. Quando me baixei era tarde. Ela viu-me. Não falou mas tive a certeza que me tinha visto. Fiquei uns momentos de cócoras, mas depois decidi-me. Se ela me ia apanhar desprevenido então mais valia ser eu a surpreendê-la a ela. Peguei no martelo que estava no chão e de um salto atirei-me contra os vidros da janela. Ela não estava longe e praticamente cai-lhe em cima (tal foi o meu impulso ao saltar). Não sei se por medo, eu estava tremendamente acelerado e fiz tudo sem que ela tivesse qualquer hipótese de resposta. Eu sempre fui muito ágil. E bem me valeu esta agilidade. Aproveitando que ela estava desequilibrada saltei-lhe para cima, agarrei lhe os cabelos com a mão esquerda e ergui a mão do martelo para baixar sobre a vampira que me atacava. Mas não sei o que me deu, que em vez de baixar o martelo baixei a cabeça e puxei-lhe os cabelos para trás. Mordi-lhe aquele pescoço pálido com toda a força até os dentes lhe rasgarem a pele e apertei com as gengivas até sentir o sabor do sangue dela na minha língua. Depois, dei golfadas sequiosas enquanto ela esperneava lutando contra os meus braços, que a prendiam contra o chão. Depois deixou de lutar. Eu não conseguia parar. Sentia toda aquela beleza escorrer-me na garganta. Sentia-lhe todos os contornos do corpo no meu corpo e toda a inocência enchia-me de prazer. Toda aquela energia, toda aquela sensualidade eram agora minhas. Toda ela era agora minha!

Ela parou de se mexer. Tal era a excitação que só muito depois consegui perceber o que se tinha passado. Afastei-me dela com repulsa e o sangue quente escorreu-me pelo queixo pingando sobre as mãos.

Ela ainda estava viva… mas eu não… o vampiro SOU EU!

 

 

publicado por sangue-fresco às 16:26

03
Mar 09

Obscuros
 

Vampiros. Entidades mistificadas, associadas ao nocturno, ao obscuro, ao lado mais mórbido da vida. Ou será da morte? Descendentes de Cain e herdeiros de Drácula, consta que se alimentam do sangue dos incautos, que dormem em caixões e que voam pelas sombras da noite como caçadores em busca da sua presa.

Quanto de todas essas lendas contadas ao anoitecer é verdade e quanto é fruto da imaginação? Eu devo saber, já que sou um deles.

Se me permitem, vou começar com uma confissão. Aborrece-me essa ideia de que os vampiros são pérfidos indivíduos de caninos perfurantes e que podem ser eliminados com algo tão simples como uma estaca cravada no coração. Será precisa tão pouca imaginação para acabar com a vida de um imortal? Não creio…

Deixem-me que vos diga. Ser um vampiro é muito diferente do que dizem os velhos mitos. E, contudo, não tão diferente como isso. Temos as nossas semelhanças, é verdade, com o quadro que pintam das nossas pessoas, mas… de uma forma um tanto afastada do que imaginaram os criadores de lendas.

Chamo-me Hayden Bellowes e estou aqui para vos elucidar. Tomem-me por exemplo da raça dos vampiros… Não sou um conde, ou um príncipe. Não tenho, aliás, qualquer espécie de título de nobreza. Isso faz de mim menos vampiro? Será que se querem aproximar o suficiente para descobrir. Não durmo num caixão, mas numa cama confortável e os meus caninos são aparentemente tão normais como os de qualquer humano. Se houver alguém corajoso o suficiente para tentar, até pode arriscar-se a cravar uma estaca no meu coração. Não sei se viverá o suficiente para ver os resultados, mas o facto é que não serei eu a desfazer-me numa nuvem de fogo.

Mitos à parte, caríssimos leitores… A minha espécie não é a monstruosidade que os romancistas inventaram, mas não é isso que nos torna menos perigosos. Aventurem-se a aproximar-se, se quiserem, mas deixem em casa o crucifixo, o alho e a estaca. São completamente inúteis.

 

publicado por sangue-fresco às 11:46

mais sobre mim
subscrever feeds
pesquisar
 
blogs SAPO