26
Mar 09

A verdade na mentira

Escrever uma crónica com uma única condição: que falasse de vampiros. Foi por acaso que dei com este passatempo. Estava a navegar, como sempre o faço durante aquelas horas que precedem o pôr-do-sol, num fórum de literatura fantástica, quando o vi. Achei irónico participar. Porque não?, pensei. Afinal quem melhor que um de nós para escrever sobre a nossa raça? Tanta coisa foi inventada com o passar dos séculos… Achei que podia explicar algumas. Mesmo sabendo que todos os que vão ler estas linhas pensarão que foi uma ideia interessante ou mesmo original de fazer uma crónica desta maneira. Vocês, os humanos, são bons a negar as evidências. Não vos culpo. Creio que no vosso lugar era capaz de fazer o mesmo. Ninguém gosta de saber que está no topo da cadeira alimentar. E isso responde à primeira grande pergunta:

Bebemos sangue? Humano?

Sim e sim. A razão é simples. É a mesma que faz com que os humanos não sejam vegetarianos. Porque deveríamos nós ser?

Remorsos?

Pensas na pobre da vaca quando comes um bife? Nos seus indefesos vitelos? Não me aparece…

Vivemos só de noite?

Sim. O porquê é simples. Fomos expulsos da luz do dia. É uma longa história. Resumindo: os nossos criadores não gostaram de ver o falhanço deles à luz do dia. Não estão a perceber, pois não? Um curso rápido da nossa história: fomos criados com um propósito. Contudo, quando nos fartamos de ser escravos, revoltámo-nos. Um das consequências foi a expulsão da luz do dia.

Quem nos criou?

Oh humano! Não viverás tempo suficiente para sentir o medo dessa revelação.

Somos maus?

Matamos para nos alimentarmos e, esqueci-me de dizer, temos prazer nisso. Responde à pergunta?

Os filmes e os livros onde os ditos vampiros são amigos dos humanos e têm sentimentos são cómicos. Todavia, acreditem, isso sim é ficção. A verdade é que fomos criados com um objectivo que não cedia espaço a sentimentos. Eu entendo que vocês precisem de pensar o contrário. Afinal são simples humanos…

Qual o objectivo?

A essa pergunta também não posso responder. Acreditem, no entanto, quando vos digo que não somos o pior que anda nas ruas à noite.

Porque nos escondemos?

Porque vocês, os humanos, não estão prontos para nós. Como acham que seria se amanhã ligassem a televisão e vissem nas notícias que os teus piores medos são reais? Que és o prato principal? Sentes o medo? Eu sei que sim. A chatice é que o medo dá um sabor amargo ao sangue, tirando-lhe o seu delicioso sabor.

Somos imortais?

Lamento dizer. Essa parte da história é verídica. Temos os nossos pontos fracos. Obviamente não os vou revelar aqui. Mas, sim, somos imortais.

Um humano pode tornar-se vampiro?

Claro! Mas, para isso, terá de beber o sangue dos nossos criadores. Não pensem que eles o dão de graça… Existem alguns casos durante os séculos. Tentem a vossa sorte. Se conseguirem captar-lhes a atenção pode ser que, em vez de vos matar, se apercebam que lhes podem ser úteis e vos transformem. Boa sorte!

Tenho a certeza que têm muitas mais perguntas, às quais eu gostaria de responder. Só que o sol já se pôs e estou faminto. Eu sei que vão todos pensar que tudo isto é mentira. Que nada do que disse é real. Daí a minha candidatura ao concurso. Sei que não vou ficar sem jantar.

Só mais uma coisa. Quando saíres à noite de um bar para atender o telemóvel ou andares pelas ruas com um amigo, sozinhos, lembra-te sempre que eu também lá ando…

publicado por sangue-fresco às 14:26

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