06
Mai 09

Entrou em casa ao entardecer e colocou os óculos de sol no baú acobreado, destinado à sua imensa colecção de lunetas escuras com hastes. Ultimamente preferia o modelo dourado, que lhe dava um ar sofisticado, opinião partilhada com a sua assistente de imagem.
 

Sentou-se no sofá à procura da melhor posição para se ver livre daquela dor de cabeça, consequência de mais um dia de trabalho a aturar os seus demónios e as suas constantes brincadeiras e discussões, entre decisões desta ou daquela nota ou da introdução de um arranjo musical revolucionário. Uma coisa era garantida, estava orgulhoso do seu estúdio.
 

Estendeu o braço e serviu-se de um copo de espumante, que estava ali sempre fresco à espera da chegada dele. Ela também devia estar a chegar, a mulher que tinha conhecido numa noite memorável em que os copos de vinho se tornaram mais do que os dedos das mãos, dedos que se perderam na pele macia e irresistível daquela que lhe toldou os sentidos, ao ponto de pedir socorro e afirmar publicamente que estava apaixonado.
 

Enquanto mantinha estas lembranças bem presentes, levantou-se para procurar o jornal e saiu para o alpendre. As notícias eram más, por isso desejou irradiar de uma vez por todas os males do mundo, enquanto exorcizava os seus próprios males a pensar nas suas viagens.
 

Mal podia esperar que a noite caísse para partir e continuar a cumprir a sua missão. Naquele dia, em particular, queria cravar os dentes e sugar o sangue daqueles dirigentes que não faziam nada pela cidade. Era uma tarefa árdua vê-los ali, desensanguentados, a pedir misericórdia e a prometerem que se os poupasse, iriam zelar melhor pelos destinos do país. Esqueciam-se depressa das promessas, mesmo assim, acabava por dar-lhes sempre mais uma oportunidade.
 

Teria sempre o prazer dos seus concertos e das suas palavras murmurantes que eram tão mordazes como os seus afiados dentes. Seria eternamente interventivo na sua figura humana, atrás dos seus úteis óculos de sol. E nas noites que passava sem dormir, só a Lua sabia quem ele era.

publicado por sangue-fresco às 16:46

Um texto envolvente, onde as palavras se combinam de forma tranquila e harmoniosa. De repente, quase que desejamos que aquele vampiro, naquela noite especifica, cumpra a sua missão e crave os seus dentes na nossa imaginação. Sem dúvida, um texto fantástico que não merecia ficar apenas por aqui: porque não iniciar um romance a partir deste texto...penso que daria uma grande obra. Parabens!
cristina a 2 de Julho de 2009 às 10:43

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