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Mai 09

Eu era ainda um miúdo quando percebi que ele não era normal. Estava naquela idade em que questionamos tudo e todos, em que olhamos o mundo com olhos de quem o descobre, e em que ninguém nos leva tão a sério como julgamos merecer.

Ele tinha uma voz contagiante e inconfundível, um corpo pálido e por vezes cadavérico, e um postura incansável em palco. Estávamos nos anos 70 e nos anos 70 muita coisa acontecia no mundo para que um adulto tivesse tempo para ouvir as considerações de um adolescente. Eu dava os meus primeiros passos na tentativa de me tornar um repórter de um jornal local sobre música.

A música sempre fora tudo para mim. E a música sempre foi tudo para ele.

 

O encanto de um vampiro nunca é muito óbvio. Não posso dizer que ele fosse um homem bonito. Mas quando aparecia ofuscava qualquer um nas redondezas. Era poderoso e parecia uma serpente quando dançava ao som das suas próprias notas. “Magro... escanzelado”, diziam elas. Mas quando se cruzavam com o olhar dele juntavam-se de imediato às histéricas fãs. Que tanto me irritava na altura. Por despeito ou mesmo inveja, a verdade é que nem assim eu deixei de ser o fã número um. E mesmo com a “quase-certeza” de que ele era um vampiro, nada mudou a minha admiração.

 

Os anos passavam. Mas aparentemente não passavam para ele. Eu deixei de ser um miúdo. Mas ele continuava igual. Os lábios enormes, a língua que parecia não lhe caber na boca e um corpo escanzelado que parecia ligado à electricidade. Com os anos, a língua tornou-se imagem de marca, e os Rolling Stones nunca mais viveriam sem ela.

“É da droga” – diziam-me quando os questionava acerca do não envelhecimento.

“E a energia também é da droga.” Explicavam tudo com traços de coca.

“Quando é pura é assim.”

Eu sabia que havia algo mais. Sabia que aquelas letras e a sua “Simpatia pelo Diabo” não eram um acaso. O sucesso constante. Tudo lhe corria de feição e o tempo não passava.

Por ironia tornei-me reporter da revista Rolling Stone. E os anos foram passando para mim. Aos poucos dei passos seguros numa carreira exemplar, e com a carreira veio a responsabilidade, de tal modo que, quando percebi que a minha “voz” era respeitada, percebi também que não podia fazer uma afirmação dessas. Não, se quisesse ser levado a sério.

Então mantive essas considerações para mim. Anos e anos com a certeza de que aquelas escapadelas nas festas eram mais do que namoricos de ocasião. De que os lábios vermelhos com que voltava não eram batôn mas sim o sangue delas. O sangue das raparigas que eu não voltava a ver na festa seguinte. Havia quem lhe arranjasse as vítimas... e se não houvese... elas próprias se teriam oferecido tal era a histería.

Mas hoje, nesta casa envelhecida e serena, com estas rugas que a vida me trouxe e onde vivo apenas com a responsabilidades de um homem reformado, posso dizer sem medo e já sem amargura:

 

O Mick Jager é um vampiro. E eu sabia-o desde o primeiro momento.

 

publicado por sangue-fresco às 12:13

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