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Jun 09

Hesitei antes de tocar na campainha, afinal o que é que eu estava ali a fazer? Quase que sentia o cheiro a sangue fresco vindo do interior do castelo, devia estar entranhado há séculos naquelas paredes de pedra escura. Curiosamente foi isso que me fez avançar, as boas recordações.

A porta rangeu ao abrir-se e isso fez com que o rapaz que me seguia tremesse. Tive de sorrir, alguns humanos são tão estúpidos. Bastou-me ter colocado um anúncio na internet a sugerir “Atreveste a conhecer um verdadeiro vampiro? Mostra-me a tua cara.” E mais de mil voluntários apareceram em menos de uma hora. Não sei como ainda fico admirada com a quantidade de gente que tem o desejo da morte, se vivessem no mundo há tanto tempo quanto eu e se tivessem visto as coisas que eu vi mudariam de ideias. De qualquer maneira escolhi, maldosamente, aquele rapaz que se parecia mais com o verdadeiro príncipe da história da Branca de Neve.

- Isabel! – Uma voz maravilhosa e doce penetrou nos meus ouvidos. Já não a ouvia há tanto tempo que quase me esquecia de quão encantadora e inocente ela poderia ser. – Estou tão contente por teres vindo. Estão cá todos. Vieram para o aniversário, não é maravilhoso?

Como é que eu me pudera também esquecer do tanto que ela falava?

- Trouxe-te um presente – disse-lhe sem qualquer emoção e apontado para o rapaz que parecia hipnotizado desde a primeira vez que a viu. Ele tinha-se vestido para a ocasião: capa negra, olhos vermelhos e dentes de plástico. Parecia uma máscara de carnaval. Quando o vi não tive coragem de tecer qualquer comentário uma vez que tinha a certeza que todo este teatro a iria divertir. E, olhando agora para ela tinha a certeza que ia adorar. Trajava o mesmo vestido que a tornava tão famosa, inclusive a enervante fitinha com um lacinho vermelho que se realçava no seu cabelo negro.

- Sabes sempre o que eu gosto. – disse-me ela piscando-me o olho e passando a sua mão branca pelo pescoço moreno do rapaz. – É efectivamente muito parecido com ele!

- Bem, sempre achei que isto seria melhor do que te trazer uma maçã vermelha.

Ela deu uma gargalhada, eu não me consegui rir, sabendo o destino fatal que teria aquele humano. Não é que sentisse alguma pontada de culpa por o trazer ali, aquilo apenas não me divertia.

- Estás muito tensa Isabel. Tantas décadas a conviveres com humanos não te têm feito bem e retiraram-te o sentido de humor. Faço questão devolver o fulgor que tinhas antes. Vem, vamo-nos juntar aos outros. Tenho uma surpresa para todos, entre elas um bolo com sete deliciosos anões prontos a comer.

publicado por sangue-fresco às 15:07

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